Sucesso: I Encontro Internacional Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva

Por Roberto Bueno

O grupo de pesquisa Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva (TECCCOG) realizou nos dias 22 e 23 de maio, o seu I Encontro Internacional (I EITCCC). O evento ocorreu no Campus Rudge Ramos, da Universidade Metodista de São Paulo (Metodista) e teve como tema os estudos sobre a comunicação humana, como elas são recebidas e interpretadas pelo cérebro humano, baseados nos estudos da Ciência Cognitiva, e como uso das tecnologias atuais atuam nessa mediação entre a Comunicação e o cérebro. As abordagens levaram em consideração as questões pertinentes à cognição – tanto em suas aplicações práticas como em suas perspectivas teóricas – não raro requerem soluções interdisciplinares, que se debruçam sobre fenômenos que necessitam ser explicados cientificamente.”

Por estas razões, aconteceram palestras de professores de Universidades brasileiras e estrangeiras das mais diferentes áreas do conhecimento, como o professor Eduardo Neiva, titular do Departamento de Estudos da Comunicação da Universidade do Alabama, e Ronaldo Prati, doutor em Ciência da Computação, professor adjunto da Universidade Federal do ABC e coordenador da Pós-Graduação da mesma área.

E os grupos temáticos deste primeiro encontro focalizaram a aplicação de métodos interdisciplinares que envolvam as áreas de Comunicação Social, da Inteligência Artificial, das Ciências da Computação, da Filosofia da Mente, da Neurociência Cognitiva e da Psicologia Cognitiva.

Foram cinco grupos temáticos que serão divididos em:  1) Comunicação, Tecnologia Digitais Conectadas e Cognição; 2) Comunicação, Interfaces Digitais e Sistemas Inteligentes; 3) Comunicação, Filosofia da Tecnologia e Filosofia da Mente; 4) Comunicação, Neurociência e Processos Cognitivos e 5) Comunicação, Sistemas Complexos e Interdisciplinaridade. E os pesquisadores que queiram participar destes grupos já podem enviar seus trabalhos para seleção até o dia 20 de abril.

Além dos professores Neiva e Prati, anteriormente citados, também se apresentam nos dois dias de encontro, os pesquisadores Danilo Bellini, mestre em Ciências da Computação pela (Universidade de São Paulo; Diego Franco, mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo; Reinaldo da Silva, professor do Departamento de Engenharia Mecatrônica, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP); João Kogler, doutor em Inteligência Computacional, e professor também pela USP; Cristiano Max, coordenador dos cursos de Comunicação Social da Universidade Feevale e o professor Walter Teixeira Lima, titular da Pós-Graduação de Comunicação Social (POSCOM), da Metodista.

 Primeiro dia

Em sua conferência de abertura, professor Eduardo Neiva, do Departamento de Estudos de Comunicação, daquela universidade estadunidense, abordou questões como o problema dos estudos de Comunicação de importar modelos da Antropologia. Outro problema levantado por ele é o de separar as dimensões culturais e biológicas do ser humano.

“Há uma tradição de singularizar e separar as dimensões da comunicação. Isso nunca me agradou, porque há uma conexão imensa na vida. Eu tinha essa intuição nos anos 80, porque não pode existir uma ordem biológica e uma ordem humana diferentes. A menos que você acredite que nós temos espíritos de anjos e não é verdade. Nós temos uma dimensão animal, biológica e etc”, explicou Neiva.

O professor também explicou que se pode considerar a Comunicação como a principal impulsionadora da evolução, tanto humana, quanto animal. E esta ideia que norteou a sua fala durante a Conferência está em seu livro, escrito em conjunto com James Lull e publicado em 2012, “Language of Life: How Communication Drives Human Evolution”.

Por causa deste papel da Comunicação na evolução, podemos considerar que essa área se “relaciona com tudo que há na vida”. Porque, segundo explicou Neiva, exerce um papel central, como “uma espécie de rainha” das disciplinas, porque tudo passa por ela, como, por exemplo, as transformações sociais e as inovações tecnológicas.

Ele continuou sua fala explicando que o ser humano está divido em grupo: “nós estamos separados, masesta separação não tem nenhum motivo de ser. Por quê? Onde a gente deve buscar a unidade das coisas – e eu venho pensando nisso há muito tempo: eu acho que nós devemos procurar na estrutura do cérebro humano.”

Ele aprofundou a explicação dizendo que os estudos do cérebro e da cognição são importantes, apesar de o mundo estar mudando constantemente, porque, apesar da existência das diferenças, elas se encontram no órgão humano. Disse Neiva que “ver é fundamentalmente interpretar. O que mostra algo interessantíssimo. O que o cérebro humano faz? Ele constrói mundos. Mas ele constrói um mundo que não é o mundo real. Ele constrói mundos possíveis”.

O painel começou com a apresentação do trabalho do professor Diego Franco Gonçalves. O objetivo do seu trabalho é escrever uma definição de Comunicação. Para isso, Franco se utiliza da Filosofia e o Teoria das Outras Mentes. Para enfrentar este desafio proposto por ele mesmo, ele divide a Comunicação entre dois modelos de ideias: a telepatia e o solipsismo. O primeiro é a ideia matemática da Comunicação: da codificação e decodificação e os problemas que surgem são ruídos de comunicação entre duas pessoas.

E o segundo modelo é a ideia de se levar em conta só a experiência, ou seja, a prática da comunicação. O professor explica que ao pensar sobre como a comunicação funciona, deve-se levar em conta as potencialidades humanas e como o ser humano atribui a objetos inanimados e aos seres vivos “crenças e desejos” e isso é um instinto natural dele.

A definição a que Franco chegou até agora foi a de que a Comunicação é a inter-atualização entre potências estéticas e potências poéticas de seres humanos.

Fechando a primeira amanhã de atividades, a palestra de Danillo Bellini, da Universidade de São Paulo (USP) mostrou como os estudos sobre percepção auditiva e a reprodução dessa percepção em computadores pode fazer com que evoluamos no entendimento de como o nosso cérebro identifica os sons e os seus diferentes aspectos.

 Segundo dia

A relação entre a Engenharia e a Comunicação e a interação homem-máquina através do cérebro humano são exemplos de palestras apresentadas nos painéis do segundo dia, 23 de maio, do I Encontro Internacional de Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva (I EITCCC), realizado pelo grupo de pesquisa Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva (TECCCOG).

O Encontro organizado pelo grupo de pesquisa TECCCOG realizou o segundo e o terceiro painel neste último dia. O segundo painel, “Engenharia, Ciências da Computação e Comunicação”, teve duas apresentações: a primeira feita pelo professor José Reinaldo Silva, da Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo (Poli – USP) e a segunda, com o professor Ronaldo Prati, do Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC (UniABC).

Após um pequeno intervalo, foi realizado o terceiro painel, intitulado “Ciência Cognitiva, Games e Comunicação”. Nele aconteceram três apresentações: as do professor da Poli –USP, João Kogler, professor da Centro Universitário Feevale (Unifeevale), Cristiano Max e o líder do TECCCOG, Walter Teixeira Lima.

 

Cultura técnica, Big Data, cérebro – máquina, videogames e Big Science

O professor José Reinaldo Silva começou os trabalhos neste segundo dia de Encontro com a palestra “Tecnologia cognitivas em comunicação e sistemas de informação”, às 9h30. Nesta apresentação, a ideia principal foi o conceito da cultura técnica. Segundo Reinaldo, este conceito “marca o inicio da preocupação na Engenharia da formação de opinião”. A cultura técnica foi criada em universidade da Inglaterra, nos anos 1980.

Como exemplo de cultura técnica, ele citou o iPhone. “Há três ou quatros anos, os celulares não tinham esse botão. Então, por que esse direcionamento tão forte com relação ao botão do meio, centralizado? Isso significa que à medida que a Engenharia evolui conjuntamente com a ciência e se vai criando novos produtos e novos rivais, se vai também formando a opinião do consumidor e isso não existia antes dos anos 80” explicou.

A partir da criação deste conceito, diz o professor, é que os engenheiros começaram a se preocupar com comunicação entre diferentes áreas da produção de produtos ou serviços e com o que os consumidores acham desses mesmos produtos e serviços.

O palestrante seguinte foi o professor Ronaldo Prati, da UFABC, com a apresentação “Big Data em Notícia”.Prati mostrou que uma das preocupações de suas pesquisas em Ciência da Computação é descobrir como fazer para que a grande quantidade de informações e dados criados a todo instante na Internet possa ser usada para a criação de notícias.

O professor explicou que “parece ser um ambiente muito interessante, porque notícia tem grande volume, tem milhares de portais, blogs e coisas afins. Velocidade é tudo, porque se você perder o timing da informação, ela perde valor. Variedade, você tem blogs, Twitter, mídia tradicional, etc. Veracidade se a informação que você está passando não for verdadeira, você perde credibilidade e Valor porque lida diretamente com uma coisa muito importante para gente que é estar bem informado”.

Ele mostrou ideias que já foram realizadas e estão disponíveis na própria Internet que utilizaram a análise de grande quantidade de informação para serem criadas. Como, por exemplo, um site disponibilizado pelo Google no qual o resultado do escaneamento de mais de cinco milhões de livros pode ser consultado para pesquisar com qual frequência determinadas palavras apareceram nessas publicações. Ou uma cientista social que analisou uma semana de notícias do site do The New York Times e indicou quais sentenças eram femininas e masculinas e demonstrou que as ligadas mais a família, amamentação e outras parecidas estavam relacionadas às mulheres e as que estavam relacionadas a trabalho, empresa e outras da mesma família estavam relacionadas ao homem.

No terceiro e último painel deste primeiro Encontro, o primeiro a fazer a sua apresentação foi o também professor da Poli – USP, João Kloger, com a apresentação “Tecnologias cognitivas em comunicação e sistema de informação”. Kloger mostrou tecnologias que se baseiam em cognição. Tecnologias estas, segundo o professor, que são do inicio do século XXI e que já estão a nossa volta.

O professor Kogler explicou o que seria a cognição: “Numa grande simplificação, a cognição pode ser entendida como está em um esquema de quadros, um ao lado do outrom ligados por sentas no sentido da esquerda para direita, onde se lê: sensação, percepção, cognição e ação. No primeiro quadro, sensação, pode ser entendido como sendo os órgãos do sentido, como o da visão, onde a sensação ocorre na retina. A ação é também bem intuitiva de ser entender. A ação se refere às coisas que nós exibimos como a fala ou a gesticulação. Os outros dois blocos são menos fáceis de captar a ideia. A percepção é a formatação da representação do lado de fora pelo cérebro. E a cognição, é um bloco mais misterioso, se origina da palavra conhecimento, ele tende a trabalhar com situações que se repetem, com situações universais, como quando eu me refiro a reconhecimento de faces: como elas se separam em categorias, como velhos, jovens, mulheres, homens; aquilo tudo que traduzimos como a interpretação do conteúdo, a informação mais semântica”.

Ele mostrou como essa ideia está sendo utilizada em vários projetos para que pessoas portadoras de deficiência física possam controlar esqueletos externos, ou exoesqueletos, como nas pesquisas realizadas pelo pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis.

O professor Cristiano Max foi o responsável pela segunda palestra cujo título “Processos cognitivos nocampo dos jogos digitais: matando monstros e salvando princesas”. Max explicou quais são os estudos existentes sobre videogame e que explicam como são feitos e como eles devem ser. Ele explicou como os videogames conseguem se “comunicar” com o cérebro dos jogadores os colocando dentro do jogo – imersão – fazendo o que eles se sintam parte da história que está ali sendo mostrada.

A última apresentação da manhã coube ao líder do TECCCOG, Walter Teixeira Lima, cujo título foi “Interdisciplinaridade entre Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva”. O professor e pesquisador comentou brevemente sobre como a área de Comunicação não se aprofunda no uso das técnicas científicas em suas pesquisas e como a inter e a multidisciplinaridade podem ajudar e muito no desenvolvimento desta área de estudo